Agricultura

Domingo, 10 de Fevereiro de 2019, 12:45

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FERRUGEM ASIÁTICA

Plantio de soja em fevereiro traz risco para a defesa fitossanitária do setor, afirmam pesquisadores

Por: Viviane Petroli

Da Redação Mato Grosso Agro

Foto: Viviane Petroli/Mato Grosso Agro

soja grão

 

O plantio de soja em Mato Grosso no mês de fevereiro voltou a ser palco de discussão e embate entre setor produtivo e pesquisadores na última semana. Para pesquisadores a possibilidade de semeadura da oleaginosa em fevereiro põe em risco toda a defesa fitossanitária do setor, visto reduzir o tempo de eliminação de plantas no campo, podendo elevar a incidência do fungo causador da ferrugem asiática (Phakopsora pachyrhizi).

Nos dias 07 e 08 de fevereiro o assunto foi debatido entre produtores rurais, pesquisadores, representantes do Instituto de Defesa Agropecuária do Estado de Mato Grosso (Indea-MT), Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico (Sedec) e Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). O debate foi em cima do texto de uma Instrução Normativa que visa regulamentar o plantio experimental de soja no mês de fevereiro ainda nesta safra 2018/2019.

O plantio da soja em fevereiro foi proposto e defendido pela Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso, a Aprosoja-MT.

A reunião no dia 07 de fevereiro teve como intuito avaliar a incidência, severidade e gerações do fungo da ferrugem asiática, conforme a pauta da convocatória da Comissão de Defesa Sanitária Vegetal do estado de Mato Grosso

O documento em questão, elaborado pelo Indea-MT e pela Sedec, pode autorizar o cultivo da soja em caráter experimental em até 4% da área registrada do produtor, limitando-a no máximo a 100 hectares. O documento ainda prevê que a semeadura possa ser feita em uma propriedade por produto ou no máximo três propriedades por produtor no estado. Além disso, a mesma deve estar inscrita no Indea-MT e ter acompanhamento constante.

Durante reunião consultiva realizada no dia 07 de fevereiro em Cuiabá, pesquisadores que integram a subcomissão de fitopatologia da Comissão de Defesa Vegetal do Ministério da Agricultura em Mato Grosso afirmaram ser contrários à proposta. Dentre as 11 entidades presentes na reunião consultiva 8 votaram contra a alteração do calendário em Mato Grosso, 2 entidades foram favoráveis e uma se absteve de votar. Já na reunião realizada no dia 08 de fevereiro, o assunto foi levado para plenário deliberativo da Comissão de Defesa Vegetal do MAPA-MT também sendo reprovada por 9 a 4.

Agora cabe ao Indea definir se publica uma Instrução Normativa liberando a semeadura em fevereiro da soja ainda na safra 2018/2019. Segundo informações do Blog do Canal Rural Mato Grosso, mesmo ainda o assunto não ter sido decidido há produtores se arriscando em plantar o grão em fevereiro, deixando inclusive as porteiras das fazendas abertas para comprovar que o cultivo nesta época seria seguro e representaria a melhor opção para os produtores que desejam produzir suas próprias sementes.

Riscos na avaliação dos pesquisadores

Foto: Viviane Petroli/Mato Grosso Agro

colheita soja

 

Na avaliação de pesquisadores tal cultivo representaria para Mato Grosso uma "grave ameaça" ao futuro da sojicultura brasileira, visto criar um ambiente propício para a sobrevivência, proliferação e evolução do fungo da ferrugem asiática.

Para o setor produtivo o plantio de soja em fevereiro poderia dar um menor prazo de armazenamento da semente entre a colheita e o plantio, visto a armazenagem ser uma das etapas mais caras do processo. Ainda conforme pesquisadores e demais especialistas, a semeadura da soja neste mês acaba deixando inócuo o vazio sanitário, realizado para evitar a proliferação de pragas entre uma safra e outra.

Um documento foi elaborado por diversas entidades ligadas à pesquisa visando explicar a importância técnica de não se prolongar a janela de semeadura do grão em face aos desafios fitossanitários do momento. O documento é assinado pela Associação Nacional de Defesa Vegetal (Andef), Sindicato Nacional da Indústria de Produtores para Defesa Vegetal (Sindiveg), Conselho de Informações sobre Biotecnologia (CiB), Associação Brasileira dos Produtores de Sementes de Soja (Abrass), Associação Brasileira dos Obtentores Vegetais (Braspov), AgroBio Brasil, Associação Brasileira de Sementes e Mudas (Abrasem), Fundação MT, Comitê Estratégico Soja Brasil (CESB). O documento elaborado pelos pesquisadores conta ainda com o apoio do Comitê de Ação a Resistência a Fungicidas (FRAC), Comitê de Ação à Resistência a Inseticidas (IRAC) e do HRAC-BR.

Tal documento feito pelos pesquisadores explica a diferença entre redução da janela de semeadura (calendarização) e vazio sanitário, o porquê da adoção do vazio sanitário entre outros.

Na semana que passou a Associação dos Produtores de Sementes dos Estados do Matopiba e Pará (Aprosem) emitiu nota em repúdio ao qual destaca que dados do setor sementeiro mostram que menos de 15% dos 10.000.000 hectares de soja cultivados em Mato Grosso são sementes salvas. A nota assinada pelo presidente da Aprosem, Celito Missio, frisa que "Considerando que o maior volume de sementes salvas é guardado por grandes produtores estruturados, pode-se concluir, que em número produtores, esta parcela deve representar menos de 10% dos sojicultores do estado. Esta minoria de pessoas, conduzidas à buscar facilidades de alto risco, certamente não estão avaliando os prejuízo que podem acontecer para os demais 90% de produtores conscientes de Mato Grosso, que não devem estar apoiando este inconveniente pleito da Aprosoja MT".

Na internet corre um "Manifesto em Favor da Sustentabilidade da Sojicultura Brasileira" (confira aqui). O manifesto é assinado por 23 entidades e são "signatários, representando interessados e instituições públicas e privadas diretamente ligadas à cadeia de produção, comercialização e transformação da soja vêm, por meio deste, manifestar sua profunda preocupação e oposição às solicitações e discussões, em diversos âmbitos, com vistas a estender o período de semeadura de soja (calendário de plantio)".

Foto: Viviane Petroli/Mato Grosso Agro

soja

 

Descobridor da ferrugem asiática e defensor do vazio sanitário lamentaria

O pesquisador José Tadashi Yorinori, falecido em junho de 2016, segundo especialistas, lamentaria toda essa situação em discussão hoje em Mato Grosso. Tadashi, conhecido como o "pai do vazio sanitário", foi o descobridor da ferrugem asiática na soja no Brasil.

José Tadashi Yorinori, pesquisador PhD em Fiopatologia, dedicou-se por muito tempo às pesquisas científicas realizadas para o desenvolvimento da soja, principalmente no Estado de Mato Grosso. A descoberta da ferrugem asiática foi uma de suas maiores contribuições para o agronegócio, bem como a sua defesa pela de um período de proibição de plantio da soja, hoje conhecido em todo o Brasil como o “vazio sanitário”.

O fundo causador da ferrugem asiática, o Phakopsora pachyrhizie, é originário da Ásia. A doença lidera o ranking dos prejuízos obtidos em cada safra. Somente na safra 2005/2006 a ferrugem asiática causou prejuízos acumulados em cerca de US$ 8 bilhões. A primeira aparição da doença no Brasil foi em 2002. Em Mato Grosso no ciclo 2011/2012, conforme dados da Aprosoja Mato Grosso, os prejuízos para esta safra foram de até R$ 1 bilhão.


*Com informações Blog do Canal Rural Mato Grosso e Coluna Vaivém das Commodities da Folha de S.Paulo

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